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Maior incidência estadual de tuberculose ocorre no Pontal

Da Redação

Em 28/02/2018 às 16:14

Mapeamento de notificações detecta índice de 43 casos por 100 mil habitantes, maior que do Estado e do país

(Foto: João Paulo Barbosa/AI Unoeste)

Minucioso levantamento de dados do Sistema Nacional de Agravos e Notificações (Sinan) possibilita o mapeamento da tuberculose na região do Pontal do Paranapanema, compreendida por 32 municípios do Oeste Paulista com população total de cerca de 600 mil habitantes. Em oito anos, de 2007 a 2015, foi detectado, de 2.221 notificações, o índice médio de 43 casos para cada 100 mil habitantes, superando o Estado de São Paulo e o Brasil, respectivamente com 38 e 32 casos em relação ao mesmo contingente populacional.
  
Outros dados significativos obtidos com as produções de mapas temáticos são de que a doença apresenta maior incidência nos homens (82,72%) do que nas mulheres (17,28%), a maioria deles é analfabeta (85%) e está na faixa etária compreendida entre 20 e 39 anos (60%), seguida dos que têm entre 40 e 59 anos (26%), sendo então que dos 20 aos 59 existe um índice altíssimo (86%). Nisso tudo há uma relação direta com os pacientes institucionalizados ou privados de liberdade, como se diz no sistema de saúde.
 
O fato de a enfermidade acometer mais os homens do que as mulheres está relacionado ao tabagismo e consumo de bebidas alcoólicas, menor procura aos serviços de saúde e baixa adesão ao tratamento. Os presos em penitenciárias são mais susceptíveis em razão do ambiente no qual estão inseridos, ao estado imunológico e maior tempo de exposição junto aos infectados pela bactéria que afeta principalmente os pulmões e propaga-se com facilidade, por tosse ou espirro.
 
Dos 14 municípios que apresentaram números crescentes da doença, no período de oito anos da avaliação, sete possuem presídios. Um dos principais problemas carcerários paulista, que é a superlotação, contribui decisivamente com os altos índices e o maior número de casos foram verificados em Martinópolis, Caiuá, Presidente Bernardes e Marabá Paulista, município onde a doença chegou ao patamar  superior a 380 casos por 100 mil. O índice mais baixo foi de 2,30 por 100 mil, em Indiana.
 
Ainda como dados preocupantes estão os 83% do índice de cura e os mais de 5% do abandono de tratamento, sendo que a Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza que o índice de cura deve ser superior a 85% e o de abandono inferior a 5%. A biomédica autora do estudo junto à comunidade científica da Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), Anne Beatriz Bortoluci, afirma que os índices gerais revelam a existência de um problema endêmico no Pontal do Paranapanema.
 
Situação que pode se agravar e que requer pôr em prática ou criar novas políticas publicas de saúde. O estudo, cujos resultados se tornaram público nesta semana por conta da defesa de dissertação no Programa de Mestrado em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional, oferece um diagnóstico indicador de qualidade de saúde capaz de orientar não somente as políticas, mas também ações de saúde no Estado e no país. 
 
Ainda poderá contribuir com a África que, juntamente com a Ásia, possuem os maiores índices de incidência de tuberculose no mundo, juntos com 70% dos casos registrados em 2015. O biomédico pesquisador e orientador da pesquisa de Anne, Dr. Marcus Vinicius Pimenta Rodrigues, anunciou que o diagnóstico do Pontal tem os dados cruzados com os de Maputo, a capital de Moçambique.
 
O biólogo e técnico do Ministério da Saúde moçambicano, António Chigogoro Titosse, está inserido no mesmo mestrado, desde o começo do ano passado e no fim deste ano finalizará a pesquisa que irá contrastar as duas realidades, na busca de subsídios para a doença presente em todos os continentes, classificada como negligenciada e que apresenta mais de 10,4 milhões de casos, com 1,5 milhão de morte anualmente. A biomédica Dra. Camila Henriques Coelho, pesquisadora vinculada ao National Institute of Allergy and Infectious Disease (HIN) na França, avaliou o estudo brasileiro como relevante.
 
Para ela, o mapeamento realizado sobre a tuberculose no Pontal do Paranapanema, conhecida por ser um dos principais polos da reforma agrária no país, oferece importantes subsídios para políticas públicas de combate à doença. A autora da pesquisa regional entende ser necessária, para alcançar as metas da OMS, melhor integração entre os prestadores de serviços clínicos e laboratoriais, gestores e profissionais dos três níveis de governo: municipal, estadual e federal.
 
Um exemplo de problema de atuação sem estabelecer a conexão necessária, para que as informações cheguem completas ao Sisan, está na falta de informação se a doença foi diagnosticada por teste rápido ou não. O agente municipal ou estadual de saúde, muitas vezes sobrecarregado de serviço devido ao reduzido número de servidores, ao notificar um caso não preenche todos os campos de informação, dando preferência para atender pacientes em relação ao trabalho burocrático.  
 
Pimenta disse ainda que a tuberculose tem um viés social muito significante: o de que pessoas com menor escolaridade são as mais vulneráveis, por falta de acesso ou mesmo compreensão de informações. 
 
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