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"O Figurante", conto do escritor Rubens Shirassu

*Rubens Shirassu Júnior

Em 24/06/2015 às 16:28

Davi queria um dia ser saudado como o Aladim do monociclo e, ao sentar-se no selim, liberta o gênio acorrentado aos pedais. Um forte, desafia de peito aberto, a legião de bárbaros de Golias. Sacola de feira no ombro, no seu passo miúdo e rebolante, empina a sunguinha e - macho não sente frio - sempre de manga curta.

Só tem olhos para as lindas atendentes nas portas das lojas. Esses perfis vistosos guardam distância de sua mãozinha boba.

Ele desdenha o pai, bonito, alto e corpo escultural, que o enjeita e não lhe reconhece a coragem e o talento artístico: - Você é que devia ter morrido. Não o teu irmão Sauro!

Davi não aceita apelido, exige por inteiro o nome. Embora mal chegue à altura do balcão, por isso, prefere a figuração no show de strip tease na boate Maria Padilha.

O incômodo torcicolo de sempre olhar para o alto. Se não fossem os braços curtos, equilibra-se na pontinha dos pés, para agarrar as ramagens floridas dos prazeres e, nos galhos mais altos, colher as ameixas proibidas que povoam o pomar da madrugada, quantas mais?

Sua paixão alucinada pelos olhos bestiais, vulcânicos e de raposa, pelas coxas torneadas no palco escuro das estrelas cadentes, durava trinta e um dias e cinco cheques assinados e sem valores descritos.

Um estalido nos canhões de luz, desce uma cascata de faíscas iluminando a ribalta. A loucura de espetáculo teve sua última apresentação na temporada. No palco do show, à mercê desses brutamontes que entretidos com tablets, smartphones e fones de ouvido, podem já espezinhá-lo - uma folha seca chutada pelo vento. Mesmo se esgueirando de rinocerontes e mastodontes da madrugada, o bravo nanico é pisoteado pelas patas dos gigantes caolhos. Ninguém se desvia: - Sai da frente você e rápido!

Davi, nosso cupido bandalho na sua estrelinha de luz negra, do jardim das delícias. Achado pela manhã, nu e despojado no campo de batalha. Celebrado por vampiros, tubarões, entre outros predadores, prostitutas, travestis, michês drogados e cadelas dançarinas. Sem celular de última geração, sem short do Paraguai e sem tênis incrementado nos pezinhos brancos e frios de anjo caído.

*Rubens Shirassu Júnior é escritor
 

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