Segunda-feira 1 de maio de 2018 | Presidente Prudente/SP

A propaganda política e seu duplo

Rubens Shirassu Jr.*

Em 10/08/2010 às 10:08

Tudo indica que acabou o folclore. Ao contrário do primeiro debate, quando as exiguidades de tempo, de domínio da linguagem televisiva e de ideias produzem aberrações hilariantes, a propaganda eleitoral gratuita, daqui em diante, é um verdadeiro ringue.

Bem postados, bem vestidos, bem retocados, os candidatos fazem um confronto imagem a imagem, palavra a palavra, cada uma delas milimetricamente ensaiada, testada e calculada. Por falta de profissionais competentes, o marketing político dos candidatos a deputados estadual e federal de Presidente Prudente e região carece de tais características. Nota-se que os candidatos têm dificuldades de expressão tanto no rádio como na TV.

Falta a um canal de TV local promover algum debate ao vivo com os mesmos, evitando o uso de recursos de corte e montagem de edição, favorecendo um ou outro que defenda interesses próprios ou de grupos corporativos.

Por mais positividade que se tente imprimir ao tom dos filmes – e como se tenta! – a impressão que resta do horário político é a de uma luta exaustiva.

O curioso, é que se obtém a vitória ou a derrota, a adesão a esta ou àquela proposta e aqui, frise-se, estamos examinando os recursos de linguagem e estilo, por meio de uma operação em que, mesmo com sentimentos edulcorados, maquiados e embalados para o consumo fácil e imediato, a agressividade própria da briga política se impõe.

Há quatro anos, o programa “Casseta & Planeta” fez uma paródia genial de propagandas “oficiais”, de empresas públicas e mesmo de privadas, que se utilizam do recurso da “musiquinha”.

Em geral, junta-se um pout-pourri de imagens de uma brasilidade feliz, sorridente, popular, de representação transregional, transclassista (desde que, é claro, os pobres que aparentem tenham todos os dentes bem brancos), e a uma “musiquinha” tresandando a “Brasil”. É uma das fórmulas mais eficientes de conferir um pouco de alegria e otimismo à ideia de nação, fazendo o espectador se render aos encantos e às graças dessa abstração “povo”.

Pois bem, é esse “povo”, feliz e lindo, capaz de tantas manifestações de beleza inconteste, que está sendo disputado, palmo a palmo, consciência a consciência, escolha a escolha.

Daí, o aviso: essa imagem de felicidade, realização e pujança cultural só se realiza se um e apenas um daqueles que se candidatam a chefe da nação se elege, pois caso seja o outro, é o negativo daquilo que é sugerido pela “musiquinha” que teremos como perspectiva.

Se funciona? É claro que sim, mas a questão é: a que custo? Sabemos que uma parte desse custo, já desde as primeiras eleições diretas pós-regime militar, deve-se à evolução das técnicas de propaganda política sugerindo que o estrago pode ser permanente e maior.

*O autor é designer gráfico e escritor

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