Rubens Shirassu Jr.*
Em 29/09/2010 às 14:25
Você já percebeu que dá para sacar uma pessoa só pelo jeito que ela conta uma história. Pelo diálogo claro e a técnica de entreter. Às vezes, a gente acaba de conhecer uma pessoa e ela conta uma história de pescaria, ou um “causo”. Esses procedimentos podem ser definitivos nas nossas relações futuras.
Sim, minha gente, contar histórias exige profundas técnicas. Poucos têm o dom. Poucos percebem o tom certo. O momento exato, o local adequado para contar a história, seja um caso amoroso, piada, ou pescaria. O bom contador de histórias é um artista, fico fascinado pela sua maestria e carisma.
Existem vários tipos de contadores de histórias, além dos políticos em geral, dos camelôs e dos governantes em particular. Um tipo que esquece o “causo”. Está já no meio, a gente, ali, interessado, dá um branco no cara, fica todo mundo olhando para ele: esqueci o fim...Pode? E o atrapalhado que, ao te perguntar se conhece tal piada ou história de pescaria, conta o fim? E tem uns que, além disso, não percebem e contam o fato assim mesmo, até o já narrado final.
Outro tipo chato mesmo, que vai contar o fato e ri antes. Mas ri para valer. Em volta dele a rodinha olhando, esperando. Esse mesmo sujeito, que ri dele mesmo, é bem provável que, depois de conter o riso, venha a rir novamente algumas vezes durante a narrativa.
Coisa mais desagradável quando o sujeito começa dizendo: “Veja bem, ou termina com você entende?” Nesse caso, quase sempre, quem conta a história conhecida estica, demonstrando não conhecer o assunto. Nada mais pretensioso, tem hora que dá vontade de dar uma porrada no cidadão? Por ser a história muito simples.
Diga para mim: existe coisa pior do que um prolixo contando “causo”? Meu Deus da paciência, aquilo não acaba nunca. Tem gente até que faz nota de rodapé em história de pescador. Rodapé é o sovaco da cobra, para não falar o português claro!
E os vigilantes da moral que tiram os palavrões quando há senhoras presentes. Até que uma das mulheres conta uma “bem cabeluda”. Uma observação: por que será que uma boa história se chama cabeluda? Certa vez comentei numa crônica que: “Como as pererecas, as boas histórias cabeludas pulam décadas. Elas são o jogo da vida, nossos vícios, além de matéria em decomposição, que provêm de nossas entranhas. Isto é visível na natureza, porque o humor e os ‘causos’ têm a sua face de verdade. Ora, pois, ela narra o Homem e a vida com palavras simples, claras e objetivas. É pobre, para alguns eruditos, mas somos nós!”
*Rubens Shirassu Jr. é designer gráfico e escritor
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do Portal Prudentino.
