Segunda-feira 1 de maio de 2018 | Presidente Prudente/SP

Especial: a relação de filhos que trabalham com os pais

Carlos Hideki, Maycon Morano e Thiago Ferri

Em 07/08/2010 às 12:01

É comum encontrar pais e filhos que trabalham juntos e driblam as situações do dia-a-dia para não misturar as relações. Especialistas sugerem que não haja uma confusão entre a vida profissional e a pessoal para evitar conflitos. Já as famílias nessa situação dizem não encontrar problemas. Enquanto alguns filhos afirmam se espelhar nos pais, outros estão para ajudar nos negócios.

A psicóloga Simone dos Santos Gonçalves destaca que é preciso manter o diálogo para que a relação afetiva não seja atrapalhada nesses casos. “Se um pai trabalha com um filho, pode haver um fator de conflito há mais”, comenta.

Ela recomenda que pai e filho não tenham cargos próximos. “Não tem como desligar a função de pai e filho, e muitas vezes se mistura conflito familiar com o profissional. É uma situação delicada que merece todo o cuidado ao ser conduzida”, fala Simone.

Admiração

As filhas do diretor-geral de uma faculdade em Presidente Prudente, Milton Pennacchi, começaram ainda na adolescência a trabalhar com o pai e a admiração cresceu quando conheceram o seu perfil profissional. “Trabalhando com ele vejo o dia-a-dia, como trata as pessoas e conheço melhor o lado humano dele”, diz Maria Inês Toledo Pennacchi, 44 anos, diretora administrativa da instituição.
Zelly, Milton Pennacchi, Marlene, Maria Inês 
e Maria do Carmo (Foto: Cedida)

Para Maria do Carmo Toledo Pennacchi, 48 anos, que trabalha como diretora financeira da faculdade, a sua visão sobre o pai mudou a partir de quando sua filha, neta dele, começou também a exercer uma função na faculdade. “Eu passei a entender que a família entra só para somar e aprendi a respeitar e admirar ele ainda mais”, justifica.

“Todos os domingos nos reunimos na minha mãe e nunca falamos sobre trabalho”, comenta Maria do Carmo. Ela diz que o relacionamento profissional nunca se mistura com o familiar.

De acordo com o pai, seus filhos sempre foram estimulados a trabalhar em família. “Hoje, minhas filhas seguem o mesmo caminho, logo que atingem a idade mínima permitida meus netos são incentivados a trabalhar”, conta.

“Minhas filhas e meu filho começaram a prestar sua colaboração à instituição logo que iniciaram o antigo nível ginasial. Andrea, a primogênita, foi a primeira e assim, sucessivamente: Angela, Karmo, Antônio Luiz, Maria Inês e Zely”, destaca Milton Pennacchi. Atualmente, além de Maria do Carmo e Maria Inês, também trabalham com ele a professora Andrea Pennacchi Marcondes, 53 anos, e a diretora acadêmica Zelly Toledo Pennacchi Machado, 40 anos.

Transmitindo experiência

O sócio de uma seguradora, José Lourenço Salvador, trabalha ao lado de dois filhos e afirma não encontrar dificuldades em separar os assuntos familiares dos profissionais. “Dentro da empresa o filho passa a ser uma pessoa comum, como qualquer outro funcionário. Se tiver algo errado também chamo atenção”, destaca.

Ele confessa que é bom trabalhar em família e que existe uma preocupação em deixar um filho capacitado para dar sequência no que construiu ao longo da vida. 
                                                                          José, Wesley e Willian no trabalho (Foto: C.Hideki)

“É gratificante aproximar os filhos ainda mais e transmitir a experiência profissional”, pontua.

Mas não é só o pai que passa conhecimentos para os filhos. Wesley Ramos Salvador, 30 anos, trabalha com o pai há 11 anos e comenta que existe a troca de experiências. “Como trabalhamos no ramo de seguros, sempre é preciso atualizar alguma coisa e um ajuda o outro”, fala.

“Ele é meu pai lá fora, aqui sou o Wesley e sou tratado como todos os outros vendedores”, diz. Segundo o filho, todos os problemas profissionais ficam na seguradora e nada é levado para a casa.

Há cerca de um mês, William Ramos Salvador, 25 anos, o outro filho, ingressou na empresa e teve a oportunidade de conhecer seu pai de outra maneira. “É gostoso porque estou começando a aprender e ver como as pessoas o tratam bem e dizem que devo me espelhar e seguir no mesmo caminho”, comenta ele, que é formado em publicidade.

Cargo de confiança

Já a família Pinto, proprietária de duas lojas de calçados no Centro de Prudente, não faz com que os filhos trabalhem de forma fixa e assalariada, porém, prefere que os dois ajudem na empresa a ter que colocar “estranhos” para realizar tarefas consideradas de confiança.

“Prefiro que eles façam uma nota fiscal, que vão até o banco para mim ou que mexam no estoque. É mais 
Celso e Alan na loja de calçados (Foto: M.Morano)

confiável do que ter qualquer um. A gente não sabe o dia de amanhã”, pondera o proprietário e pai, Celso Pinto, que leva o casal de filhos para ajudá-lo na loja desde os 16 anos de idade.

Ele pontua, ainda, que a ajuda não é obrigatória. “Eu não os faço virem à força, mas é uma maneira que tenho de fazê-los dar valor ao dinheiro, entender que não é fácil ganhá-lo”, diz. “Eu procuro não tratá-los como empregado para evitar conflitos”, acrescenta Celso.

Contudo, o mais novo, Alan Barbosa Pinto, 18 anos, lembra de um problema decorrente de uma conta não paga. “Mas resolvemos na hora e ficou por aquilo mesmo, não levamos para casa”, fala. Sobre começar a trabalhar com seu pai, ele explica os motivos. “Na verdade decidiram por mim, mas eu gosto, é bom trabalhar aqui”, afirma.

Já sua irmã, a fisioterapeuta Aline Barbosa Pinto, 23 anos, que trabalha na Santa Casa de Presidente Prudente mas continua a ajudar seu pai nas folgas, não se recorda de conflitos. “Acho que não houve, não.” Ela também explica como começou. “Ele queria que eu fosse só para acompanhar, mas depois virou rotina e continuo indo lá até hoje”, justifica.

Mas em um ponto, os dois são unânimes. “Ele é viciado em trabalho”, fala Alan. “Meu pai é muito trabalhador, está sempre pensando no nosso futuro, é um sacrifício fazê-lo tirar uns dias para descansar”, destaca Aline.

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