Rubens Shirassu Jr.*
Em 03/08/2010 às 09:45
Quantas toneladas de comida e bebida já foram consumidas na história do mundo e da literatura? Quantas ceias, saraus e banquetes, quantos petits déjeners, piqueniques e monumentais bebedeiras já foram tematizadas pelos grandes escritores? De Homero a Tom Wolfe, passando por Rabelais e pelo século XIX (Balzac, Flaubert, Maupassant, Eça de Queirós, Machado de Assis), até chegar aos clássicos contemporâneos (Marcel Proust, James Joyce, Louis-Ferdinand Céline), a grande literatura tem muito de uma história das celebrações.
E esta dualidade acompanha os escritores por toda a vida: a degustação na vida e na literatura. Dessa pauta inocente podem-se extrair interessantes lições. A mudança nos paladares e cardápios acompanhou, mantidas as proporções, profundas transformações históricas.
Se a leitura já é, em si mesma, um ato de degustação, a degustação nos grandes livros nunca é gratuita. Em Flaubert, o festim etílico no romance Salammbó é um momento funesto e sanguinário; em Jorge Luís Borges, o vinho é um símbolo que condiciona toda a história do mundo. Em Raul Pompéia, um banquete é descrito com detalhes repugnantes e até macabros, sugerindo um mundo em dissolução; em Céline, um requeijão pode suscitar visões do Apocalipse. Em Tom Wolfe, a “floresta” de cristais e pratas é indicativa do consumismo yuppie dos anos 80; já em Proust, a famosa Madeleine é uma guloseima capaz de detonar um caudal de lembranças – o próprio livro.
Um grande texto que alia a literatura à comida é A Festa de Babette, da dinamarquesa Isak Dinesen (1885-1962). Um conto que foi um desafio para Dinesen: como publicar um texto culinário/literário? Em 1949, a escritora fez uma aposta com um amigo. O desafio era escrever um conto sobre comida, a ser publicado numa revista na época de Natal. Também o texto teria que ser um dos chamados “contos natalinos”. Inicialmente foi rejeitado. A narrativa era sobre um formidável jantar francês preparado por uma criada francesa no litoral remoto da Dinamarca do século 19.
Babette – fugida dos tumultos e dos tormentos da perseguição política em seu país -, prepara, à revelia das próprias patroas, um fumegante e histórico jantar. Sopa de tartaruga, codornizes levíssimas, uma suíte inteira da produção de vinhos da douce France, incontáveis formas flambadas em séculos de saber gastronômico. Os convidados: membros carcomidos de uma seita religiosa severa. O jantar torna-se uma verdadeira comoção para aqueles espíritos e organismos submetidos a um regime mais do que frugal de orações e árduo bacalhau. É o acontecimento na vida daquelas pessoas. Na noite profunda do litoral da Dinamarca, o efeito do jantar de Babette (símbolo de todas as criadas e cozinheiras da história da literatura – a Françoise de Proust, as empregadas de Stendhal) é de puro encantamento. Como o próprio efeito do conto, e avidamente consumido em Natais passados, tornou-se uma história das celebrações.
*Rubens Shirassu Jr. é designer gráfico e escritor
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