Rubens Shirassu Jr.*
Em 17/09/2010 às 10:00
Nenhuma outra forma de arte conseguiu sobreviver às repressões brutais ao longo da história como o teatro. Ele é o último reduto da oralidade. É claro que nosso teatro pode não ser lá muito sofisticado, do ponto de vista técnico. Em tempo de laboratório e de expressão corporal, o pessoal da área se contenta em transmitir mensagens de conteúdo político, filosófico e social.
Pois, o teatro em Presidente Prudente provou que um trabalho artístico-crítico pode e deve ser feito. Existe um pessoal que anda na contramão, às próprias custas no subterrâneo (bem a imagem do típico “mambembe” dos anos 70, a interação com o público lançada pelo humor irreverente do Asdrúbal Trouxe o Trombone) sem dinheiro e estratagema político para alugar as duas salas existentes na cidade, por possuírem as mínimas condições de estrutura, entre as quais, a acústica. Quando conseguem uma verba com muito suor, um certo burocrata alega que a agenda está lotada até o final de novembro. Por outro lado, isso tem sido muito bom, porque numa sociedade de tradição na pecuária e, portanto, extremamente conservadora, preconceituosa e repressiva, eu acho que a forma que mais se presta ao combate desse autoritarismo, desse sufoco bravo, é o teatro.
Mesmo com as faculdades, forma-se em Presidente Prudente um pequeno público consumidor de cultura capaz de ir aos sebos, aos concertos, ao teatro. Esse bom fruto nos convida, também, a pousar nosso olhar sobre a cidade e região, e a descobrir na reflexão alguns de seus inumeráveis segredos. Sinto as incongruências cotidianas de uma cidade repleta de idiossincrasias, como o índice demográfico de 220 mil habitantes contrastando terrivelmente com a imagem que todos temos da capital da alta sorocabana, viril, quente e seca da cidade. Diante do depósito de presos em promoção pela grande imprensa, fica a imagem de colônia esquecida e mistificada pela cultura regional. A propaganda compõe um quadro folclórico promissor e otimista. Como fica claro o paradoxo ao lado da falta de perspectiva e saída, entre cômico e absurdo, ao mesmo tempo, visionário do brasileiro impulsivo, sonhador, orgulhoso e conservador, na sua mais autêntica expressão, não se pode compreender totalmente esse universo complexo e ambíguo, a menos que se esteja incrustado em seu solo e contexto, como os conscientes e corajosos artistas da cidade e região.
Feito “Macunaíma”, de Mário de Andrade, trata-se de uma alegoria do aparente modernismo e dinamismo, que abandonara as possibilidades de construir uma grande metrópole e enveredou num labirinto ilusório e sem saída, tutelada por certos segmentos da sociedade. A falta de pragmatismo junto aos comportamentos passivo e conformista, contribuiu (de maneira inconsciente) para formar um pré-conceito do interiorano brasileiro nas visões dos grandes centros urbanos e do estrangeiro, apelidado de “produtor virtual”.
*Rubens Shirassu Jr. é designer gráfico e escritor
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