Eliseu Visconti*
Em 04/11/2010 às 16:12
A democracia na política pressupõe a participação de todos os atores envolvidos em volta de um ideal comum, que é o bem estar da população. Divergências de opiniões e de condutas são comuns na democracia, e é dever de todos tentar harmonizá-las, cedendo aqui e acolá, num processo que nada tem de hostilidades ou de ódio, mas também não admite o servilismo, que quase sempre leva à traição.
A História já assistiu a movimentos adesistas, de entes que se colam ao poder presumido ou constituído, com o único fim de abocanhar-lhe uma fatia.
Os dicionários definem as rêmoras como peixes que têm em cima da cabeça uma ventosa com que se fixam a outros peixes grandes ou ao fundo das embarcações. Rêmoras, pois, já retratadas por Vieira desde 1564, no seu Sermão de Santo Antonio aos Peixes, são bichos de caráter oportunista e interesseiro, e vivem do que outros lhes concordam dar.
Os partidos políticos deste país têm se valido de alianças que, antes de programáticas ou ideológicas, constituem-se em jogos de poder. Unem-se para vencer. Quando lá no topo, dividem entre si a força, os cargos, as funções e as verbas. Os que disputaram e venceram aderem imediatamente, pavoneiam-se do status conquistado e sentam-se no Olimpo, à mesa dos deuses. Passam a formar o que se convencionou chamar “base aliada,” que não é mais do que o direito a recolher a espórtula dos verdadeiramente poderosos.
A cobrança dos adventícios assume, não raro, a face desprezível da chantagem. Por se julgarem merecedores, os novos parceiros exigem vantagens, como se fossem protagonistas decisivos do embate eleitoral. Se não atendidos nas pretensões, afivelam a máscara dos oposicionistas, e deblateram contra as presumidas injustiças sofridas.
A vida de um aderente pode se tornar muito dura: tem ele que afagar o poder como exercício diuturno e disciplinado, usar as insígnias de “basealiadista” e auditar os atos dos chefes da coligação à que aderiu. Um “basealiadista” que se preza não se une à oposição, pelo simples fato de que, neste país, adversários são classificados de inimigos indignos de viver ou de exercer o direito de discordar e pleitear o direito de convivas na mesa dos poderosos.
Longe de me apropriar da verdade – ela tem faces múltiplas e não pertence a ninguém com exclusividade, arrogo-me o direito de refletir sobre os protagonistas de uma disputa política: não deve haver vencedores, perdedores ou privilegiados, no Nirvana político. Caso raciocinemos – e concluamos – que o bem comum é o campo a ser conquistado, teremos, sim, co-participes, aliados e combatentes pela paz. Nossas ações serão comandadas pelo bom senso e pela visão de resultados positivos, que não punam derrotados e nem privilegiem “bases aliadas” que servem somente a interesses próprios.
Fernando Pessoa já afirmou que a sociedade é um sistema de egoísmos maleáveis.
Sejamos egoístas ou opositores, mas vivamos claramente.
*Eliseu Visconti é jornalista, escritor e colaborador do Portal
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