Só aquela sensação de perda pode ansiar por querer ficar mais perto
Rubens Shirassu Jr.*
Em 04/11/2010 às 12:32
Todos sentem, após a despedida de uma pessoa querida, na plataforma de embarque, nossa televisão mental realizando tantas inserções sobre estar perto e afinidades, uma sensação fraternal que aflora, bem familiar por pertencer à circulação emocional de nosso universo particular, ainda ficaram mais adoradas.
Fico me perguntando: um dia antes da partida, viver com aquelas pessoas era diferente? E, se um dia, antes deles irem embora resolvesse lhe dar um dia muito especial: o programa teria o mesmo impacto, alcançaria a mesma repercussão? Claro que não. Mas, eram as mesmas pessoas e os mesmos atrativos! A mesma vida! Por que então precisamos da partida para consolidar algo em nosso espírito? Por isso, diz uma frase imortal, que não recordo o autor: “A distância tira a intimidade”. Palavras sensatas.
Viver a rotina com eles alcança o mesmo sentimento forte e grande, os mesmos interesses, as mesmas emoções. Seguramente, só nos resta viver. Precisamos da ausência de corpo, da partida, ou morte, para imediatamente começar a compreender o significado de uma vida. Segundos após a despedida da bem-querida e dos amigos leais e solidários instala-me, com evidência, um estado mais claro de consciência e conhecimento do que as pessoas são e representam.
Que mistério será esse da despedida e partida, liberar, uma coisa sem açúcar mais com grande afeto e, definir uma vida, uma distância que liga duas pessoas ou círculos de amizades? Será, por isso, a distância que separa dois corpos, uma prova de Deus onde testa a sintonia, respeito, amor e persistência de almas companheiras? Sim, creio.
Momentos após a partida de alguém, o sentido de vida que nos era alheio ou desconhecido estabelece-se claro e nítido. Ela nos faz estender, sob a forma de uma admiração, que só a despedida, aquela sensação de perda, egoísta de propriedade, pode ansiar por querer ficar mais perto. É meus leitores e leitoras, a vida parece nos conferir uma certa intimidade com as pessoas e a intimidade invalida o reconhecimento, torna-se tudo igual, próximo, equiparado, comparável.
*Rubens Shirassu Jr. é designer gráfico e escritor
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