Eliseu Visconti*
Em 14/07/2010 às 11:40
Todos os animais – racionais ou irracionais - migraram alguma vez e continuam se movendo de um local para outro, movidos por necessidades elementares de sobrevivência, como a procura de alimento e um local mais apropriado para se desenvolver, ou tocados por motivos alheios à sua vontade, como a fuga de guerras e perseguições de toda ordem, que ameaçam as suas existências.
Animais trazem novas formas de vida, transportam sementes e mudam o habitat.
Os seres humanos levam a cultura, o comércio e se miscigenam, formando novas raças e modos de vida.
A migração tem sido o principal fator a contribuir para a globalização, e por isso tem merecido a maior atenção dos estudiosos, que se debruçam sobre as suas causas e efeitos para a humanidade.
As Nações Unidas mantêm uma Comissão Global para a Migração Internacional, que se dedica à matéria, que tem oferecido constantes desafios, numa época em que as distâncias se tornaram menores e as fronteiras mais tênues.
Nos últimos 25 anos, o número de migrantes mais do que dobrou, e mesmo que represente uma proporção ainda modesta,- cerca de 3 por cento, ou 200 milhões de indivíduos - se comparada à população mundial, afeta de forma indiscutível a vida dos países.
Não é de estranhar que algumas das maiores concentrações de migrantes situe-se nas chamadas “cidades globais,” onde a vida é dinâmica, criativa e cada vez mais similares, nos seus problemas e características urbanas. Estes grandes centros tornam-se, a cada dia, mais cosmopolitas e interligados, mercê da mundialização dos processos de comunicação.
O poder de mobilização do ser humano influi, de forma indubitável, no processo econômico, político e cultural de todo o mundo.
Cerca de 60 por cento de todos os migrantes vivem, hoje, nas regiões mais prósperas, restando às regiões menos desenvolvidas os 40 por cento restantes.
Estimativas da ONU dão conta que a migração entre os países menos adiantados tem crescido. A Ásia abriga, hoje, cerca de 49 milhões de migrantes, enquanto que a África e a América Latina – Caribe incluído – contam com respectivamente 16 milhões e 6 milhões.
Os países mais avançados enfrentam um problema que tende a se agravar, graças ao envelhecimento da população. O seu desenvolvimento dependerá, cada vez mais de mão de obra que garanta sua manutenção.
A Comissão observa que a migração criou raízes tão profundas que dificilmente serão extirpadas. Se tomarmos, por exemplo, um cidadão indiano, que decida emigrar, ele encontrará comunidades de compatriotas em lugares como Londres, Paris ou New York, que lhe proporcionarão um ambiente inicial para tentar a sobrevivência. A migração tornou-se mais uma norma do que uma exceção, em muitos casos.
Não são poucos os exemplos em que tanto países, como outros agentes envolvidos, seja na vida civil como no setor privado, têm tratado o problema com sapiência, ao proporcionar aos migrantes oportunidades de estudar, se especializar e se integrar à vida comunitária, tornando-se cidadãos plenos e úteis á vida local. Muitos deles retornam à origem, levando conhecimentos vitais ao progresso doméstico.
Existem, porém, comunidades que não compreenderam, e por isso, não aceitam os imigrantes, o que dá origem a discriminações e conflitos. É bem verdade que os migrantes têm por obrigação o respeito às leis dos países que os acolheram, sob o risco de se tornarem marginais da sociedade, com todas as conseqüências resultantes.
Alguns países limitam-se, por outro lado, a aceitar de forma passiva a entrada de imigrantes, mas que não se preocupam em investir na sua integração, o que redunda em prejuízo para todos.
Há algumas verdades incontestáveis e fatos para refletir:
- o envelhecimento da população, com destaque para os países mais avançados, exige a importação de mão de obra;
- enquanto existir desequilíbrio no mundo, e as viagens ficarem ainda mais fáceis, a migração crescerá;
- é preciso encontrar formas pacíficas de disciplinar os movimentos migratórios, para evitar conflitos sérios;
- finalmente, já se pode antever uma humanidade miscigenada, mercê da integração das raças, como inevitável conseqüência da diminuição das populações européias.
Sugiro uma demorada leitura do relatório da ONU, em http://www.gcim.org/attachements/gcim-complete-report-2005.pdf
*Eliseu Visconti é jornalista e escritor