Eliseu Visconti*
Em 19/07/2010 às 11:27
É fácil explicar a razão. O nível de cultura e de informação dos nossos ascendentes era menor. Grande parte do trabalho era manual, e não exigia muita especialização ou conhecimentos profundos. Aos domingos não havia lazer disponível, e as pessoas, após o culto religioso, iam às praças ou às feiras, que se localizavam próximas à igreja, por falta de opções.
Este hábito social vem mudando bastante.
A atividade artesanal ocupa hoje uma parcela mínima da população. A vida em sociedade exige níveis crescentes de informação e especialização. A televisão chegou às casas, instalaram-se os cinemas e teatros, os clubes também, e o lazer deixou de ser desenvolvido em torno das praças, como no passado.
O aumento da população gerou a necessidade de desenvolver novas tecnologias, equipamento, remédios e serviços à população cada vez mais eficientes e especializados, o que levou ao espetacular crescimento da ciência e da tecnologia, e conseqüentemente às especializações e estudos avançados.
Surgiram as escolas superiores, as faculdades e as universidades, que passaram a comandar o grau de desenvolvimento de uma nação.
A primeira universidade de que se tem notícia foi a Universidade de Bolonha, na Itália, em 1150, numa época em que ainda se pensava que a Terra era plana. Em 1257, surgia a Sorbonne.
Quando o Brasil foi descoberto, já havia cerca de 62 universidades no mundo. Por volta de 1800, eram 143. Na América Latina, as primeiras a serem criadas foram as de Santo Domingo (1538), Lima (1551) e México (1551), sempre controladas por ordens religiosas e que por isso priorizavam o ensino de Teologia e Direito Canônico. Na América do Norte, as primeiras universidades foram as de Harvard (1636), Williamsburg (1693) e Yale (1701), que formavam pastores e administradores.
O estudo universitário custou a ser implantado no Brasil. Somente em 1920 foi criada a Universidade do Rio de Janeiro, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro, fruto da reunião da Escola Politécnica, das faculdades de Medicina e de Direito então existentes. Seguiu-se, em 1934, a Universidade de São Paulo, que trouxe diversos professores, cientistas e intelectuais europeus para o seu corpo docente.
Em 1950 havia 10 universidades no Brasil, e em 1960, mais de 30.
De acordo com o MEC, através do INEP, evoluímos, em 2004, para 169 universidades no país, sendo 83 públicas e 86 privadas. Naquele ano foram oferecidas, pelas universidades, cerca de 2.300.000 vagas. Tínhamos, então, cerca de 4 milhões de matrículas no ensino superior.
É pouco, muito pouco, para um país que precisa sair da condição de terceiromundista, se quiser progredir.
Estamos vivendo o século 21, e a sede pelo saber aumenta a cada dia. Os países ditos em desenvolvimento têm que estar muito atentos ao atendimento das suas crescentes necessidades de acumular e aplicar conhecimentos, sob pena de se distanciarem ainda mais dos grandes centros do exterior, que levam a educação a sério, como a única forma real de independência.
Mesmo que os propósitos dos nossos dirigentes sejam os mais altos, precisamos passar do discurso fácil às ações, que sabemos difíceis. A época das promessas passou. Cansamos de ser o eterno “País do Futuro.”
Se os bandeirantes alargaram as nossas fronteiras físicas, temos agora que reverenciar os educadores, que transformaram a geopolítica das cidades.
As concentrações urbanas modernas, que orbitavam em torno das praças, crescem, atualmente, à sombra das universidades.
Hoje, pode mais quem sabe mais. A excelência do saber leva à excelência de viver.
*Eliseu Visconti é jornalista e escritor