Rubens Shirassu Jr.*
Em 12/01/2010 às 10:13
O homem, hoje, vive simultaneamente em todas as partes do mundo. Dói-lhe a terra inteira como se fosse uma extensão sensível de seu corpo. O rádio, a televisão, a internet são as células nervosas desse imenso organismo a transmitir-lhe impressões sob a forma de notícias. O jornal e a revista são os gráficos dessa vida nervosa complementar, estampando as oscilações de nossas tristezas universais, nossas pálidas esperanças ecumênicas, nosso medo, somando as parcelas do mundo em nossa mente, divide a nossa mal distraída atenção por todos os continentes.
O homem particular desaparece: somos todos homens públicos. As mesmas vibrações percorrem os povos de toda a Terra; nossa curiosidade e nossos interesses estão em todos os lugares; nosso ativado espírito de justiça não recua diante das fronteiras; já não vivemos em nossa urbe limitada; nossa segurança não depende apenas de nós ou da polícia da cidade. Uma atitude tomada a milhares de quilômetros poderá transformar violentamente o nosso plano de vida para amanhã. Não tem sentido dizer: não tenho nada com isso. Pois isso ou aquilo, tudo tem a ver conosco. Temos a ver com todas as coisas e todas as pessoas.
Essa unanimidade, que une pelo pensamento, consciente, é o dado mais estranho de nosso tempo. Temos a ver com o não-pagamento da dívida externa dos Estados Unidos, e é preciso conhecer os motivos desse gesto, como a pequena comunidade que se tornou independente depois de séculos de servidão, com a transferência de propriedade de um grande empresário.
Tudo pode afetar a nossa vida, nossa consciência, nosso sentimento de culpa, nossa tranquilidade, nossa noite de descanso. Estamos envolvidos por tudo e por todos. Das experiências espaciais às pesquisas genéticas. Das multidões esfomeadas da Índia à menina brasileira que vive do lixão. Das reviravoltas das políticas israelense, coreana e chinesa às brigas pelo comércio de petróleo.
Da janela de meu quarto, aberto para todos os quadrantes, eu, um homem indago o mundo, olho as suas razões, farejo os motivos e as consequências dessa ou daquela atitude, dessa ou daquela omissão, refletindo a vasta massa informe dos acontecimentos, das situações estacionárias, revolucionárias, ou reacionárias, das promessas e das mentiras universais. E olhando, indagando, refletindo, o seu interesse cruza com o interesse de milhões de outras criaturas que procuram um entendimento universal, uma evolução verdadeira, uma paz estável para as gerações novas, uma segurança solidária, um mundo afinal mais decente, menos enganado pelos poderosos, menos injustiçado. Nosso destino é morrer, mas também é cultivar um novo dia, o resto é aflição ou frivolidade do espírito.
* O autor é designer gráfico e escritor
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