Rubens Shirassu Jr.*
Em 22/05/2010 às 09:33
A Copa do Mundo e o carnaval são as expressões de uma alegria. As cornetas, os gritos, o barulho, o tan-tan dos tambores espancam a tristeza que há nas nossas almas, dando-nos um alento, enchendo-nos de prazer temporário.
Todos nós vivemos o momento da Copa. Balconistas, frentistas, patrões, doutores, soldados, ambulantes, domésticas, todos pensamos no período da Copa.
Como a folia carnavalesca, o grande burburinho das multidões de torcedores é que nos tira do espírito as graves preocupações da nossa árdua vida.
Há para esses cultos, sacerdotes e estrategistas abnegados. O mais claro e espontâneo é o profissional de marketing das agências publicitárias. Desde a famosa seleção dos anos 70, este profissional, junto a sua equipe incute em nós aquele espírito ufanista, que não sentimos desde as “Diretas Já” e o “impeachment” de Fernando Collor, ao vestir com orgulho e satisfação a camisa verde-amarela, o boné, a bandana, entre outros acessórios. Com os modernos e atuais recursos da computação gráfica, assistimos nas TVs e internet um desfile de alegorias que nos induzem a esta mistura de cores e efeitos, uma sensação de ansiedade, euforia e expectativa pré-copa, ou de mega evento.
O plano de marketing consiste em impulsionar o turismo, o comércio e a indústria do Brasil. Somos meros espectadores de um “remake” (quer dizer, a volta) dos álbuns de figurinhas mitológicas que revivem a nossa infância e adolescência nos anos de chumbo e medo da ditadura.
Ao aproximarem os dias da Copa as pessoas saem de sua gravidade burocrática, atiram a máscara fora e vão para a rua. E então, eles esquecem de tudo: a Pátria, a família, a humanidade. Delicioso esquecimento! Passarão vários dias dizendo bobagens, xingando aqui, pagando rodadas de cervejas, cantando acolá. Não seremos mais a disciplina, a correção, a lei, o regulamento, era o corista inebriado pela alegria de viver. Evoé, Baco! Apesar de isolados no estado de São Paulo, consequência de um estratagema ardiloso...
Grande parte da população coloca-se na figura de uma estrela atacando rumo ao gol de placa. Ele quer o reconhecimento da torcida. Realizamos uma transferência na partida que lembra a arena e seus gladiadores na Roma pagã. A conhecida política do “pão e circo”. Assim, o Brasil embriagou-se.
Essa nossa triste vida, neste País triste e insatisfeito, é manipulada pelos mágicos marqueteiros e “sua alegria passageira, de satisfação e prazer, a irreverência, a energia e a criatividade que põem em realizá-lo fazem vibrar a massa dos respeitadores dos preconceitos”, como bem diz o esquecido Lima Barreto.
*Rubens Shirassu Jr. é designer gráfico e escritor
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