Época de eleição é motivo geral de festa.
Como se todo dia fosse uma final de Copa do Mundo, grupos formam-se à porta dos bares, nas saunas dos clubes, e cada um se transforma em analista político, cheio de razões e de sapiência, ao garantir, é claro, que o seu candidato já ganhou.
É o momento em que os nossos são inteligentes, preparados e pra lá de honestos, enquanto que os adversários não passam de aloprados – eu não poderia abdicar do uso deste qualificativo, que é o mais moderno sinônimo para sacripanta, que o nosso ingênuo presidente relançou nas páginas criminais.
Nas cidades do interior a coisa se passa em ritmo de fábula: os candidatos locais, já conhecidos de todos, logo recebem o devido rótulo: bicho bom, ladrão, cornudo, honesto, rouba-mas-faz e assim por diante.
Já dos chamados paraquedistas, que só aparecem a cada quatro anos, e muitos deles nem seriam reconhecidos, caso chegassem à roda de papo naquele instante, correm as lendas e narrativas. (obrigado, Herculano) Existe sempre alguém que conhece o candidato, sua família ou que trabalhou com ele.
Os mais espertinhos vão aos candidatos de fora e se comprometem a dar-lhes um montão de votos, desde que sejam remunerados. Pegam a grana do infeliz e saem por aí, anunciando que são íntimos do Fulano, que “mandam” nele, e que garantem recompensa para seus eleitores.
Menos mal que certas práticas eleitoreiras já foram banidas, como a troca de votos por miçangas – camisetas, camisinhas, canetas, bonés etc – os showmícios e a sujeirada de outdoors, faixas e banners em postes e outros locais públicos.
Restaram os carros de som, chatíssimos, barulhentíssimos e inúteis, os santinhos e os churrascos, banquetes e regabofes. Estas eleições contribuirão para o aumento do índice de obesidade dos brasileiros, verdadeira apoteose do Fome Zero.
Quanto aos carros de som, só uma pergunta fica: aquelas musiquinhas horríveis, sobre os candidatos, já mudaram a disposição de alguém para votar? Como são chatos os jingles!
Nas campanhas só deveriam ser tolerados os santinhos, os estandartes e os cabos eleitorais, essas figuras geniais, dignas de alguma crônica do Nelson Rodrigues ou Alberto Moravia, que enfeitam e emporcalham, alegram e dão raiva, verdadeiros arautos da democracia, merecedores das bênçãos gerais.
Tem gente que hiberna durante quatro anos, encostando-se em qualquer canto ou se ocupando dos mais variados ofícios, ocultando-se no anonimato do populacho.
Chegadas as eleições, acordam da mesmice do seu dia-a-dia e ressurgem, qual borboletas saídas das lagartas, e saem às ruas, colorindo-as com seu alarido, camisetas, bandeiras, bandeirolas e santinhos.
Há aqueles cabos eleitorais tristes – como disse Fernando Pessoa dos mendigos, que têm os olhos tristes por profissão – que apenas estão defendendo mais um período de sobrevivência, por dois ou três meses, e cumprem a sua tarefa mecanicamente, quando não encontram um canto qualquer para desovar os seus santinhos, tapeando, desta forma, o candidato que os patrocinou. Estes são chatos e incômodos, mas de qualquer forma coloridos.
Mas o melhor de tudo são aqueles cabos eleitorais que trabalham por prazer, vocação, amor ao candidato, não sei bem qualificar tal atitude. Estes parecem crescer de estatura, ocupar a largura da rua onde estão, e nos encher de alegria, com sua desenvoltura e vontade de trabalhar. Chegam, conversam, nos dão o santinho na mão com carinho e até mesmo uma certa reverência, e pedem para votar no seu candidato.
Como se fossem membros de torcida organizada, olham com despeito e desdém para os cabos de candidatos rivais, e não raro saem para a discussão e até mesmo aos tapas.
São estas pessoas sublimes que nos fazem acreditar que a vida existe, para ser vivida e revivida, e que a democracia está presente, mesmo nos momentos mais difíceis da vida republicana.
*Eliseu Visconti é jornalista e escritor