Rubens Shirassu Jr.
Em 17/06/2010 às 17:25
Narciso é o mais moderno dos mitos. Vive de aparências, ama as aparências e por elas morre e se transfigura. Alguém já deve ter satirizado a indústria das futilidades biográficas, onde o mexerico ganha ares de transcendência. Durante séculos, o mito de Narciso passou por diversas versões e interpretações. Alguns autores preferiram levar às últimas conseqüências a ideia de uma sociedade absolutamente narcísica, uma espécie de ficção científica da psique. Por isso, acho que devemos pesquisar mais sobre as encarnações do Narciso contemporâneo.
Um homem em princípio, se constitui por dois caminhos. De um lado, se identifica com os valores, obrigações, tradições que cada um recebe de sua cultura étnica, nacional, familiar entre outras coisas. Mais conhecidas como identificações simbólicas. Do outro, se esforça para coincidir com a imagem que poderia satisfazer aos outros (primeiro aos pais). Este esforço é, resumidamente, o narcisismo, mais incômodo do que simplesmente se apaixonar por seu próprio rosto.
Imaginemos uma sociedade onde, paradoxalmente, entes convivam à procura da imagem que reflita a absoluta singularidade e a conformidade de todas as imagens pré-fabricadas. A arte desta sociedade, por exemplo, detestará os cânones e privilegiará a expressão contra a representação. Também a inovação será para ela um valor em si, embora fadada a se tornar moda. O experimentalismo de cada dia entrará no museu no dia seguinte.
As pessoas se reunirão segundo critérios reais, pois estes aparecerão como os únicos autênticos: por exemplo, a cor da pele, o sexo, a preferência sexual entendida como destino fisiológico, etc. O status social deve ser comprovado além das aparências; a posse de objetos será critério de valor. Num mundo assim, não há como separar, com a necessária nitidez, o real da fantasia, a verdade da publicidade e o que somos de fato daquilo que os produtos que consumimos sugerem.
*Rubens Shirassu Jr. é designer gráfico e escritor
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