Renata Soares de Souza*
Em 19/04/2010 às 14:15
O Movimento Nacional das Cidadãs Positivas, a RNP+ Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids e a Rede de Jovens Vivendo com HIV/Aids são mulheres, homens e jovens que vivem com HIV/Aids e 200 mil dessas utilizam medicamentos antiretrovirais para prolongar a vida.
Hoje a nossa vida está ameaçada pela falta de medicamentos! Depois de quatorze anos de política de acesso aos medicamentos para aids no Brasil, estamos apelando para a sorte outra vez, só que agora não é a falta de política que está em questão, pois a política de acesso universal aos medicamentos existe, o que não existe são os medicamentos.
Quando os gestores são questionados – federais, estaduais e municipais – sobre a responsabilidade por este desabastecimento, no caso do Abacavir, droga utilizada para HIV/Aids, a resposta é da Nota Técnica nº 362/09 do Ministério da Saúde que “... orienta a substituição do Abacavir por outros devido às dificuldades encontradas na aquisição do medicamento... das quais resultam atraso das entregas previamente programadas...”
Desabastecimento orientando a troca de tratamento é muito grave!
Vemos claramente neste caso, a ausência de uma postura governamental qualificada para uma gestão técnica e política capaz de enfrentar essa vergonhosa barganha que os laboratórios fazem com a vida das 200 mil pessoas, mostrando ser essa uma política vulnerável e a mercê de um mercado e de seus fabricantes.
O governo paga aos laboratórios bilhões dos cofres públicos e não oferece nenhuma resistência aos jogos de troca-troca (Abacavir, Saquinavir, DDI...) a quebra de patentes e falta de cumprimento de prazos estabelecidos. Que falta de gerenciamento de qualidade é esse que o Brasil não faz?
O desabastecimento do Abacavir, Biovir, Lamivudina é a ponta de um iceberg que esconde e também explicita o descaso da saúde pública no Brasil e, conseqüentemente, de seus dirigentes para com as 600 mil pessoas, sendo: mulheres, homens, jovens e crianças que vivem com HIV/Aids.
A perversa política dos laboratórios, que impõem as suas condições (patentes, produção e pesquisa) em nome, é claro, do lucro somado à negligência do governo brasileiro no gerenciamento desta política, colocam a nossa vida em risco, alem de fazer-nos objetos com os quais eles brincam (governo e laboratórios).
É este o gerenciamento de uma política pública de medicamento considerada em todo o mundo um modelo? A política é vulnerável ao mercado e à sua logística de distribuição e isso é uma ameaça a nossa vida. Que adesão é possível de ser feita se a qualquer momento trocar de medicamento é indicado por motivo de desabastecimento do mesmo? Por acaso, esses medicamentos são balas de doce que não provocam nenhum efeito tóxico e danoso ao organismo quando introduzidos ou substituídos?
Diante desse cenário, nós, que vivemos com HIV/Aids, queremos dar um BASTA a tudo isso. Não somos objetos e sim sujeitos desta história e lutamos pela vida e pela qualidade da política de acesso aos antiretrovirais.
A vida não pode ser banalizada, negociada ou negligenciada como está sendo feita na política de saúde e de aids no Brasil em detrimento dos interesses comerciais, políticos e do péssimo gerenciamento da política de medicamento para a aids e da saúde em geral.
*Renata Soares de Souza é representante regional da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids (RNP+ Aids)
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