Rubens Shirassu Jr.*
Em 18/06/2010 às 10:55
A maioria dos críticos de Oscar Wilde condena os excessos no texto de “O Retrato de Dorian Gray”, a aberta homossexualidade de Dorian, algo inédito na literatura da época, e atacam a pouca humanidade dos personagens. Na verdade, eles são mais temas do que personagens, mas a trama não precisava de mais.
Hoje, lê-se “O Retrato de Dorian Gray” mais como uma história gótica de terror fascinante pela tentação da impunidade, em que o conflito da arte e da vida ocupa um segundo plano. Muito mais evidente, em tempos pós-freudianos, é a presença do duplo no romance, a questão do desdobramento da personalidade em faces antagônicas. O livro provocou escândalo, mas sua qualidade é inegável como um relato imaginoso e hipnótico, tantas vezes imitado. E teve a particularidade de marcar o destino de Wilde: graças a ele é que Lord Alfred Douglas, o jovem por quem se apaixonou e acabou provocando sua queda, quis conhecê-lo. Ao se encontrarem, Douglas disse que lera o romance muitas vezes seguidas e elogiou tanto o livro que Wilde lhe deu um exemplar de luxo.
Na história, Dorian Gray é um homem jovem e bonito que cultua a beleza e o prazer. Quando Basil Hallward, um amigo pintor, oferece-se para fazer seu retrato, Dorian sofre com a idéia da rapidez com que passarão sua juventude e bela aparência. Graças à magia de um pacto que fez, todos os males da vida não deixarão nenhum traço no rosto de Dorian; apesar dos seus vícios e crimes, ele fica jovem e puro. Mas, seu retrato, escondido, é que mostra os sinais do tempo e da corrupção. O retrato vive lembrando a Dorian o mal da sua vida dupla. Finalmente, desesperado, Dorian esfaqueia o retrato e morre como se ele próprio tivesse sido golpeado. Seus criados acham o retrato mostrando um homem jovem e belo, enquanto o cadáver é de uma aparência repulsiva.
Oscar Wilde gostava de contar histórias sobre retratos e, inspirado por obras tão díspares como A Pele de Onagro, de Balzac, O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson, Fausto, de Goethe e Sidonia, de Meinhold, armou a trama baseada no mito da imagem vindicativa que se volta contra seu modelo - ecos da luta pai-filho e homem-Deus. Partiu de uma idéia romântica convencional: um jovem que vende a alma em busca da eterna juventude, mas a ela agregou o tema da arte enfrenta a vida. Não é uma obra perfeita, mas um dos talentos de Wilde era escrever com uma elegante negligência, como se fosse uma diversão (ele mesmo descrevia o estilo maciço de Henry James como um "penoso dever"). O que ele quis narrar? Uma fábula sobre tirar da vida mais do que ela pode dar.
* Rubens Shirassu Jr. é designer gráfico e escritor
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