Segunda-feira 1 de maio de 2018 | Presidente Prudente/SP

Bitucas de cigarro são o lixo mais comum do planeta, diz estudo

José Tadeu Arantes | Agência Fapesp

Em 19/03/2026 às 11:54

Massa total das bitucas descartadas anualmente no ambiente é da ordem de 766,6 milhões de quilos

(Foto: Arquivo)

Nada menos do que 4,5 trilhões de bitucas de cigarro são descartadas incorretamente todos os anos, formando uma das faces mais onipresentes – e menos percebidas – da poluição ambiental global. Isso significa em torno de 550 bitucas lançadas anualmente no ambiente para cada habitante do planeta.

Um amplo levantamento compilou dados de 130 estudos científicos realizados em 55 países entre 2013 e 2024 e revela que esses pequenos resíduos atingem densidades médias de 0,24 bitucas por metro quadrado em ambientes urbanos e aquáticos. É como encontrar uma bituca a cada quatro metros quadrados. 

Picos extremos no mundo ultrapassaram 38 bitucas por metro quadrado em praias e áreas costeiras altamente frequentadas e populosas. A massa total das bitucas descartadas anualmente no ambiente é da ordem de 766,6 milhões de quilos.

O estudo mostra ainda que áreas ambientalmente protegidas – principalmente aquelas com regras mais restritivas – conseguem reduzir a contaminação em até dez vezes quando comparadas a locais sem qualquer tipo de proteção legal. Mesmo assim, nem parques nacionais ou reservas marinhas escapam totalmente do problema, uma vez que as correntes marítimas podem levar para essas localidades lixo descartado muito longe delas, seja em praias seja em áreas urbanas.

A revisão, fruto da parceria entre pesquisadores vinculados à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), à Universidade Estadual Paulista (Unesp), ao Instituto Nacional de Câncer (Inca), à Johns Hopkins University, nos Estados Unidos, e à Universidad San Ignacio de Loyola, no Peru, constitui a mais abrangente síntese já produzida sobre a distribuição global das bitucas e suas implicações ambientais. 

Artigo a respeito, tendo como primeiro autor o engenheiro ambiental Victor Vasques Ribeiro, doutorando do Instituto do Mar da Unifesp, foi publicado no periódico Environmental Chemistry Letters. Ele descreve em detalhe os padrões espaciais, os chamados hotspots de contaminação, e o efeito do grau de proteção ambiental na redução do problema.

“Os contaminantes químicos presentes na bituca espalham-se rapidamente, ainda mais quando em contato com a água do mar. Em poucas semanas, esse material tóxico é liberado no meio ambiente, podendo ser letal para várias espécies aquáticas”, diz Ribeiro. 

Os cigarros contêm mais de 7 mil compostos químicos, dos quais ao menos 150 são tóxicos. Mas o problema não termina aí: o miolo do filtro é composto por um polímero, o acetato de celulose, que, como outros plásticos, permanece por um tempo enorme no ambiente, fragmentando-se em microplásticos que contaminam organismos marinhos e podem retornar aos humanos quando esses organismos são consumidos.

Além do impacto ambiental, o estudo também dialoga com o debate sobre saúde pública e o papel do filtro na história do cigarro. Para André Salem Szklo, da Divisão de Controle do Tabagismo do Inca, que orientou o estudo de revisão, a existência do filtro foi usada historicamente como argumento de marketing. 

“Passa a ideia de que, com filtro, o cigarro seria um produto mais saudável, favorecendo, portanto, a iniciação e a manutenção do comportamento de fumar. Mas isso não se sustenta. Com a introdução dos filtros, aumentou, inclusive, um tipo específico de câncer de pulmão, ligado a partículas finas”, conta.

O número de 4,5 trilhões de bitucas que chegam anualmente aos ambientes urbanos e aquáticos não foi produzido diretamente pela nova revisão, mas por uma compilação feita pela Organização Mundial da Saúde (OMS). 

Ribeiro lembra que, globalmente, são fumados cerca de 12 trilhões de cigarros por ano. “Uma fração enorme acaba nos oceanos, para onde quase todas as águas convergem”, afirma. 

Praias concentram grande circulação de pessoas, turismo intenso e consumo recreativo – fatores que favorecem o descarte inadequado. Mas não é apenas por isso que aparecem como as áreas mais contaminadas: elas também funcionam como verdadeiros “sumidouros” de resíduos sólidos. 

Bitucas descartadas no interior das cidades ou até em regiões distantes podem ser carregadas pela chuva e pelos rios até o mar. Além do impacto ambiental direto do descarte dos cigarros fumados (bitucas), a produção e o consumo de cigarros emitem 84 milhões de toneladas de gás carbônico na atmosfera a cada ano.

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