Segunda-feira 1 de maio de 2018 | Presidente Prudente/SP

Auxiliadora: 'Dona Lurdinha' é homenageada no 2º Simpósio de Liderança Feminina

Da Redação

Em 22/03/2024 às 09:51

Evento regional homenageia Dona Lurdinha, moradora do Jardim Vale do Sol e auxiliar da Paróquia São Lucas

(Foto: Maycon Morano/AI Câmara)

O café forte, saboroso e sem açúcar posto à mesa – adoçar é por conta da visita. O bolo de fubá cremoso pronto a ser fatiado e apreciado. O queijo curado, caseiro, como se diz, à espera de uma laminada. É com o sorriso fácil, amizade pronta a ser laçada, que Dona Lurdinha recebe um desconhecido em sua casa. É a referência de sua comunidade, o Jardim Vale do Sol, em Presidente Prudente.

Como forma de reconhecer suas ações – levemente perpassadas ao longo deste texto, como o aroma de um café fresco, a Escola do Legislativo “Vereadora Professora Ana Cardoso Maia de Oliveira Lima” presta homenagem à Lurdes Alves Marinho, como patronesse do 2º Simpósio de Liderança Feminina do Oeste Paulista. O evento ocorre nesta sexta-feira (22), no plenário da Câmara Municipal.

Para chegar à sua casa, ponto de referência do bairro, basta virar a primeira à direita, após, ou em frente, da Paróquia São Lucas. Ao entrar, no espaldar de uma cadeira, a estola verde do Tempo Comum utilizada pelo Monsenhor Mauro Laércio Magro aguarda a limpeza costumeira de Dona Lurdinha. O pároco passará a utilizar a cor roxa da Quaresma que então iniciava.

Casada e filhos? “Não, eu sou leiga consagrada!”, afirma. “Eu sou leiga consagrada do Instituto Secular Maria de Nazaré. Na família, nós vivemos na cidade, na comunidade, aonde nós estivermos, só que fizemos votos de pobreza, de obediência e de castidade”, explica. “Em 1998 fiz a entrada dentro do instituto e em 2008 eu fiz o voto perpétuo”, acrescenta.

A chave da paróquia – retirada da parede e sobre a mesa para a fotografia – fica sob sua guarda. “Meus pais sempre foram ensinando a frequentarmos a igreja, sempre nos levando à missa”, justifica, mas reforça situações de provações que passou pela vida, como um acidente doméstico com fogo, quando moravam em um sítio. “A medicina não era igual hoje. Minha mãe costumava fazer curativo com folha de bananeira; quando arrancava, arrancava com o couro”, afirma. Além de uma osteomielite, uma inflamação na medula, em que teve que operar e ficar internada na Santa Casa de Presidente Prudente. “Descobrimos quando eu tinha 12 anos e completei os 13 anos de idade dentro do hospital”, menciona.

“Às 8 horas abro a sacristia, deixo aberto lá, as janelas da igreja e depois venho embora. Lavo a túnica do padre. Faço parte da pastoral do dízimo, da pastoral da saúde, eu vou antes da missa uma hora, ou uma meia hora, aí eu abro, ligo o ar, o estacionamento, arrumo primeiro o altar, coloca o missal, o suporte do microfone, eu faço na quarta a tarde e na quinta de manhã; no sábado à tarde vou para a casa católica, que é uma ação do Instituto Secular Maria de Nazaré”, enumera.

Natural de Paranacity, aos 65 anos de idade Dona Lurdinha é daquelas pessoas que cuidam de todos ao seu redor, seja dos familiares, amigos, mas, principalmente, desconhecidos. Cuida, não somente da saúde, mas de necessidades básicas, como levar uma vizinha ao supermercado em seu gol “quadrado” branco – a referência da cor à uma ambulância é mera coincidência.

“A gente tem que ser igual à Maria, sempre estar disponível”, projeta. “Por que hoje está difícil achar alguém que tenha disponibilidade no outro. Aqui é simples, ontem mesmo fui no mercado perguntei se a vizinha queria ir, fez a compra dela também”, acrescenta.

Ainda muito nova se mudou com a família para Teodoro Sampaio, onde ficou por cerca de 16 anos. Se mudou para Presidente Prudente em 17 de agosto de 1980 – sim, sua memória é mais do que precisa.

“Minha irmã mais velha Isabel Alves Marino trabalhava na Telesp, foi transferida pra cá, veio em 1979, ficou em pensionato, depois nós nos mudamos todos”, lembra Dona Lurdinha, de uma família com seis mulheres e dois homens – os pais, José Marinho e Minelvina Alves de Araujo. “Enquanto isso comecei a trabalhar de babá”, menciona, citando nomes das ruas em que trabalhou, mães, pais e crianças que ajudou a “criar”.

Fez concurso público em 13 de dezembro de 1981. Passou, mas demorou dois anos para ser chamada para o cargo no INSS, de atendimento ao público – sua vocação. Formou em Ciências Biológicas na Unesp, no início dos anos 1980 – “terminei em julho de 1984” – e especialização em Matemática. “Além do trabalho de babá, também dei muita aula particular”, recorda.

Com uma mudança administrativa, foi deslocada para o NGA. “Fomos cedidos pelo Ministério da Saúde, por isso sou aposentada como servidora federal. “Meu último dia trabalhado foi 30 de agosto de 2019, mas fiquei até o dia 6 de setembro de 2019”, pontua. “Agora só faço as coisas boas para meu tempo”, ressalta.

Com o dom e a experiência de atender o próximo, Dona Lurdinha ajuda a todos, sem distinção. “Não, não faço nada por obrigação, faço tudo com amor. Eu falo que quando a pessoa tem amor mesmo, a pessoa é diferente. Não faço nada por interesse, o que tiver no meu alcance eu faço, por mim eu faria até mais. Porque eu falo que nós estamos tudo aqui de passagem, nós não vamos levar nada”, analisa.

“Depois que aposentei nem deitei mais, mas, por exemplo, a gente aqui tem a missa dos enfermos, em que buscamos os doentes em suas casas e os levamos para a igreja. Todo mês tem, é muito gratificante. Eu quando faço as visitas, pra mim é uma felicidade”, explica.

Além destas ações de saúde, Dona Lurdinha, exemplo de cidadania, também auxilia as pessoas com eventualidades corriqueiras. “A vizinha não sabia fazer pix. Eu falei ‘pode vim’. Aí veio aqui a tarde e falei: uma outra vez você vem de novo, pra você fazer sozinha, para aprender”, expõe.

“Eu falo que sou uma pessoa muito feliz e realizada. Graças a Deus eu não tenho do que reclamar de nada. Nós planejamos uma coisa, mas não é aquilo temos que fazer a vontade de Deus. Começa um novo dia e eu falo: Senhor, seja feita a tua vontade. E vamos embora”, finaliza Dona Lurdinha.

Desconhecida para a maioria da sociedade civil, seja do cidadão comum ou dos órgãos e entidades organizadas, Dona Lurdinha é uma das milhares de pessoas que fazem o bem sem esperar algo em troca. Desconhecida para o leitor, mas não para quem ela fez e faz muita diferença, como uma verdadeira cidadã e cristã. Como um trocadilho do próprio bairro em que vive nos últimos 30 anos, é um vale de sol, de luz que irradia para todos. O exemplo, aliás, arrasta.

“Decidimos homenagear uma pessoa em vida e, entre muitas aspas, anônima. Em que pese a Dona Lurdinha não fazer parte do círculo político e das nossas grandes entidades, ela exerce sua vocação diária com amor e dedicação há muitos anos. Ações importantíssimas que, apesar da maioria da população não tomar conhecimento, é muito importante para a sociedade como um todo”, ressalta o chefe do Legislativo Prudentino, vereador Tiago Oliveira.

Simpósio

O 2º Simpósio de Liderança Feminina do Oeste Paulista – edição Lurdes Alves Marinho (Dona Lurdinha) ocorre na Câmara Municipal. A enfermeira Hellen de Campos Madia, servidora pública do município de Presidente Prudente na Estratégia de Saúde da Família (ESF) do Conjunto Habitacional João Domingos Netto, é a mestre de cerimônias do evento.

Neste ano, o simpósio conta com uma palestra de abertura a ser realizada pela primeira mulher a fazer parte do Corpo de Bombeiros na cidade, a subtenente PM Carla Martins.

Em seguida, uma mesa-redonda será mediada pela jornalista Paula Sieplin, com a participação da engenheira Sandra Yokota; a empresária e podcaster Rose Hofig; e a técnica em enfermagem e empreendedora independente Lucimara Augusto Pinto, mais conhecida como Mara Danega.

O evento é aberto ao público, com convite para todas as lideranças femininas da região, como vereadoras, prefeitas, primeiras-damas, mulheres à frente das entidades e, principalmente, a população em geral. (Texto de Maycon Morano/ AI Câmara Municipal)

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