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Premiado em Cannes e Havana, filme estreia mostra no Sesc Thermas

Da Redação

Em 05/06/2018 às 09:26

Especial de junho apresenta filmes representativos do movimento cultural

(Foto: Divulgação)

Uma semana antes de os Beatles lançarem "Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band" e cinco meses antes de Che Guevara ruir em La Higuera, na selva boliviana, o baiano Glauber Rocha colocaria nas telas brasileiras de cinema uma obra que, em 1967, parecia um delírio, mas que hoje pode ser vista como uma profecia do Brasil atual.

Listado entre os cinco melhores filmes nacionais pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema e vencedor de prêmios em Cannes e Havana, o longa-metragem Terra em Transe abre nesta terça-feira (5), no Sesc Thermas de Presidente Prudente, a mostra Tropicália, especial de junho do Cine Bosque. A sessão começa às 19h30, com entrada gratuita.

O filme

O filme pode ser considerado um espetáculo poético sobre o transe político pelo qual passam países da América Latina. Considerado o mais importante e polêmico filme de Glauber Rocha e um dos precursores do movimento tropicalista, ‘Terra em Transe’ revelou-se premonitório: o Brasil de hoje é uma verdadeira terra em transe.

O herói da trama é o poeta e jornalista Paulo Martins, vivido por Jardel Filho, especializado em trabalhar para políticos. Na fictícia república de Eldorado, campanhas políticas são polarizadas e confusas, como as que deram justificativa ao golpe de 1964 e ao impeachment de Dilma Rousseff, em 2016.

Dois líderes populistas disputam a Presidência: o religioso Porfírio Diaz (Paulo Autran) e o ex-sindicalista Felipe Vieira (José Lewgoy). Paulo é assessor de Diaz, mas se cansa com falsas promessas e passa a apoiar o opositor. Erra de novo. Como o rival, Vieira jura combater a fome e governar “para todos”. Mas faz um pacto com políticos e empresários desonestos, entre eles, Júlio Fontes (Paulo Gracindo), o magnata da TV.

Ao estrear em 19 de maio de 1967 no Rio de Janeiro e ganhar o mundo, o longa de 105 minutos alcançou repercussões controversas. Trazia a visão de um Brasil caótico e urbano, inédito aos olhos dos estrangeiros. No Brasil, a recepção foi outra. Primeiramente, a censura vetou a exibição, mas constatou que se tratava de uma sátira às esquerdas, liberando-a. Os jovens militantes detestaram a história porque ela revelava as insolúveis divisões da esquerda. Só perceberiam muito tarde que o filme antevia a luta armada que os dizimaria nos anos 1970.

O roteiro final, fruto de dois anos de pesquisa com quase 700 páginas escritas, foi só um resumo da ideia original do autor. No rascunho datado de 1965, temas como homossexualidade, religiões de matriz africana, críticas à Petrobras e trabalho escravo integravam o projeto.

O diretor Glauber Rocha (1939-1981) enfurecia tanto a esquerda como a direita. Além de satirizar ambas, valia-se dos então detestados políticos liberais para patrocinar seus filmes. Assim rodou o documentário “Maranhão 66”, para a campanha a governador de José Sarney – que a descartou, por ser realista demais.

Fazia profecias, em geral sobre o passado. “Ainda faremos filmes feios”, disse em 1970 para valorizar a precariedade de “Terra em Transe”. Resumia assim a sua arte: “Uma ideia na cabeça e uma câmera na mão”. Seu legado está em tentar compreender o caos do Brasil para salvá-lo do atraso. Da crítica social de “Barravento” (1962) à confusão de “Idade da Terra” (1980), passando pela alegoria “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), deixou nove longas-metragens de ficção e oito documentários.

Mostra Tropicália

Em junho, o especial Tropicália apresenta filmes representativos do movimento cultural que revolucionou a produção artística no Brasil, misturando manifestações tradicionais da cultura brasileira a inovações estéticas radicais.

Os tropicalistas sacudiram a cultura brasileira e deram um passo à frente no meio musical tupiniquim. A música brasileira pós-Bossa Nova e a definição da “qualidade musical” no País estavam cada vez mais dominadas pelas posições tradicionais ou nacionalistas de movimentos ligados à esquerda.

Contra essas tendências, os tropicalistas universalizaram a linguagem da MPB, incorporando elementos da cultura jovem mundial, como o rock, a psicodelia e a guitarra elétrica. Ao unir o popular e o experimentalismo estético, as ideias tropicalistas acabaram impulsionando a modernização não só da música, mas da própria cultura nacional.

Ao longo do mês, a mostra cinematográfica ‘Tropicália’ ainda exibe os filmes: O Bandido da Luz Vermelha (12/6), Macunaíma (19/6) e Deus e o Diabo na Terra do Sol (26/6). O Cine Bosque também promove uma sessão extra, no dia 13/6, com o filme Nise – O Coração da Loucura.

A exibição integra a programação do Cinepsiquiatria, organizado pela Liga de Psquiatria da Faculdade de Medicina da Unoeste. Após a sessão, haverá bate-papo com o médico psiquiatra Giovanni Lopes de Farias.

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