Globo Rural
Em 14/01/2010 às 10:40
No Pontal do Paranapanema, os cortadores de cana estão se dedicando aos estudos. Eles buscam aprender novas funções para escapar do desemprego que deve chegar com a mecanização das lavouras.
Aos 47 anos, o trabalhador rural Francisco Oliveira sabe que no canavial moderno não há espaço para o bóia-fria. “Quanto mais máquinas, vai acabando nossa profissão de cortador de cana”, diz.
A expansão do setor sucroalcooleiro no oeste do Estado de São Paulo começou no final da década de 90. Para ocupar enormes áreas com cana-de-açúcar, trabalhadores rurais vieram de várias regiões do País. Hoje, o trabalho abundante está desaparecendo.
Uma pesquisa da Universidade Estadual Paulista (Unesp) revela que entre 2007 e 2009 23 mil cortadores de cana perderam o emprego em todo o Estado de São Paulo.
No final da tarde, o facão parece mais pesado. O corpo dá sinais de que chegou a hora de parar. “Eu gostaria de sair daqui porque é sofrido esse trabalho”, desabafa a trabalhadora rural Aparecida dos Santos.
Foi na lida nos canaviais que ela encontrou energia para, sozinha, criar dois filhos e construir a casa onde mora. “Se eu pudesse voltar atrás, eu teria estudado. Eu não estudei. Então, hoje estou tentando ser alguém na vida. Se Deus quiser ainda vou conseguir ser”.
É na sala de aula que os trabalhadores voltam a se encontrar. Muitos não concluíram o ensino fundamental. Além de qualificar para o mercado de trabalho, a educação começa a transformar a vida dessas pessoas.
A escolaridade média dos trabalhadores da cana é de 3,7 anos. Os cursos profissionalizantes são uma parceria de uma usina e do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Para frequentá-los é preciso apenas saber ler e escrever. Setenta por cento das vagas são para quem já trabalha no setor. O restante é para quem está desempregado.
“Estamos buscando a profissionalização desse pessoal para que eles tenham uma melhor qualidade de vida e que possam migrar para uma mão de obra mais qualificada”, explicou Adilson Segato, gerente de usina.
Indo ao encontro de novas oportunidades, mulheres buscam lugares antes ocupados apenas por homens. “Eu pretendo fazer esse curso porque é uma vontade que eu tenho de dirigir uma máquina e é uma oportunidade para gente que quer trabalhar”, diz Aparecida da Conceição, trabalhadora rural desempregada.
Nos últimos dois anos, surgiram 3,7 mil vagas de operadores de máquinas. Existem no País 900 mil cortadores de cana. A estimativa do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social é que até 2014 70 mil trabalhadores rurais percam o emprego somente no Estado de São Paulo.
Para o Sindicato Rural, mesmo com a capacitação, é impossível o mercado de trabalho absorver tantos profissionais. “Aqui está tendo curso de soldador, de operador de caldeira e vários outros cursos fora do setor sucroalcooleiro. Somente aprender a operar máquinas agrícolas não vai preencher essa lacuna que é automatização do setor sucroalcooleiro, que está causando o desemprego”, afirma o presidente do Sindicato dos Cortadores de Cana, Elmo Silveiro Lesio.
Cristiano Silva começou no corte da cana aos 13 anos de idade. O desgaste precoce foi recompensado. Hoje é ele quem coordena o processo de mecanização de uma usina de álcool. “A oportunidade está aí para a pessoa crescer. Basta ela se aperfeiçoar que consegue chegar lá”, cita.
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