Segunda-feira 1 de maio de 2018 | Presidente Prudente/SP

Enxerimento: articulista analisa postura do Brasil frente Honduras

Eliseu Visconti*

Em 02/12/2009 às 13:10

A cidade de Niterói fica do outro lado da Baía de Guanabara.

Conta-se que um gozador quis brincar com um amigo e acercou-se dele, alarmado: “Manoel, a sua mulher sofreu um acidente lá em Niterói e quer a sua presença em casa, urgente!”

Lá se foi o ingênuo, embarcando numa lancha rápida. No meio da viagem o desconfiômetro funcionou e ele disse aos seus botões: “Péra aí, eu não me chamo Manoel, não sou casado, não moro em Niterói, o que estou fazendo nesta lancha?”

Esta parábola aplica-se ao caso de Honduras, que elegeu o seu novo presidente no domingo, sem violência, ameaças, denúncias de fraude e com índice de comparecimento superior aos 60 por cento, índice muito bom, num país em que o voto não é obrigatório. Registre-se, por oportuno, que à eleição de Zelaya, em 2005, o comparecimento foi de 54 por cento. Acresce, ainda, que as citadas eleições já estavam programadas antes da deposição de Zelaya, a alma gêmea de Chàvez.

Pois esse pequeno país, que merece todo o nosso respeito, mas que não tem fronteiras conosco e nem mantém laços comerciais significativos tornou-se o centro de uma polêmica política muito séria, por conta das idiossincrasias dos responsáveis pela política externa brasileira, nomeadamente o chanceler Celso Amorim e o assessor especial Marco Aurélio “Top-Top” Garcia, o MAG, devidamente autorizados pelo “Pai dos Pobres e Protetor dos Desvalidos,” o presidente Lula.

O que se passou, na realidade? O presidente Zelaya, encorajado pelo guru Chàvez, resolveu que se poderia candidatar para mais um mandato, ao arrepio da constituição do país, e mesmo proibido e avisado pela Justiça hondurenha, peitou os poderes constituídos e marcou eleições para derrubar a constituição, igualzinho ao que fizeram Chàvez e Evo, entre outros democráticos sulamericanos. Foi defenestrado e exilado, mas não desistiu: percorreu seca e meca, dando uma de coitadinho – sem, porém, perder a arrogância – e dizendo-se deposto por um golpe de Estado. Foi acolitado por nossos brilhantes democratas – não confundir com o DEM – e homiziou-se na embaixada brasileira em Tegucigalpa, de onde deitou falação, com deselegância, chapelão e o beneplácito dos reis da diplomacia.

Danou-se. Mesmo sob os vitupérios de bolivarianos e seus ardorosos fãs brasileiros, a eleição aconteceu e um presidente está pronto para ser apressado.

O que é que o Brasil tem com isso tudo? Tudo e nada. Meteu-se onde não devia, “perdeu” as eleições e o bonde, e ao que tudo indica, vai voltar atrás nas suas infelizes atitudes e declarações.

Se examinarmos a recente história da América Latina, veremos que ela foi pontilhada de golpes de Estado, de ditaduras e de voltas à normalidade democrática. Assim foi na Argentina, onde o general Bignone, em 1983, cedeu lugar a Alfonsin, em pleito legal. Em 1989, no Chile, Pinochet foi derrotado por Aylwin em eleições livres. No Paraguai, Stroessner foi deposto em 1989. Na Nicarágua, em 1990, os sandinistas, de esquerda, convocaram e perderam as eleições. Em 1992, Chàvez, que já tentara golpe de estado e perdido, assumiu o poder em eleições livres. Cá nesta Terra de Santa Cruz, os militares foram para casa, e deixaram Sarney assumir, mesmo não sendo o vice – pois Tancredo não tomara posse. (será que o MAG classificaria o fato como golpe de Estado?) Os exemplos estão aí, para quem quiser. Bolívia, Haiti, Suriname etc., contam-nos histórias que não edificam nosotros, os sulamericanos.

Salvo falha de memória, o Brasil não se insurgiu contra os novos regimes, até porque, para restaurar a democracia, é preciso que exista uma ditadura. As intervenções brasileiras, como no Haiti e no Suriname (o general João Figueiredo não concordou com a então iminente invasão do Suriname, pelos americanos, e montou uma grande operação de ajuda ao país) deram-se sempre com propósito pacífico, e não incendiário e desastrado diplomaticamente, como em Honduras.

Concluindo, melhor não ir a Niterói, e acreditar menos em gozadores ou malandros com agenda oculta.

* O autor é jornalista e escritor

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