Segunda-feira 1 de maio de 2018 | Presidente Prudente/SP

A morte: julgamento do assassinato de Florivaldo Leal é recuperado

Em trabalho inédito, Altino Correia revive transmissão após 53 anos

ROGÉRIO MATIVE

Em 15/01/2024 às 10:48

Por décadas, Altino Correia guardou as quatro fitas de rolo, que foram doadas ao Museu Municipal; agora, acervo está digitalizado

(Foto: Cedida/Maycon Morano)

Em maio de 1969, o radiojornalismo prudentino registrou um dos seus maiores feitos em toda a história ao somar sete horas de transmissão ao vivo do julgamento do homem acusado de ter matado o então prefeito Florivaldo Leal, a golpes de um cabo de picareta três anos antes, o que fez 'explodir' a audiência da extinta ZYR-84 Rádio Prudente AM 1070 Khz.

Apesar dos fatos terem ultrapassado o tempo por meio de recortes de jornais amarelados e da memória de quem viveu à época, o maior registro deste dia que parou a cidade de Presidente Prudente aguardando a decisão judicial ficou 'escondido', correu risco de ser perdido e jamais tinha sido reproduzido uma única vez.

Gravada em fitas de rolo, a transmissão do julgamento ficou sob a batuta de um dos maiores ícones do jornalismo prudentino: Altino Correia. Ele também foi o responsável por ser o guardião deste material, que permaneceu intacto até então.

Graças ao seu zelo, e contando com a sorte após um empréstimo malsucedido, uma parceria envolvendo vários profissionais resgata a história e disponibiliza o material ao público em geral por meio da digitalização do acervo radiofônico, além de uma entrevista com o jornalista Altino Correia, que também ouviu sua própria voz nos arquivos recuperados após exatos 53 anos.

Isso foi possível por meio do trabalho detalhista de Wellington Rodrigues, responsável pelo estúdio de gravação - Bolinha Áudio Produções - onde foram executados os trabalhos; dos jornalistas Rogério Mative e Maycon Morano, que conduziram o reencontro da memória com o fato, representando o Portal Prudentino e a M2 Comunicação, respectivamente; além da guardiã da história do município, a diretora do Museu e Arquivo Histórico Municipal Prefeito Antônio Sandoval Netto, Valentina Romeiro Flores.

O acervo digitalizado e a entrevista em vídeo estão disponíveis para consulta e pesquisa no Museu Municipal; a versão compacta apresentada aqui será também reproduzida aos visitantes do local por meio da nova expografia inaugurada no ano passado.

Memória preservada

"Digitalizar esse acervo que estava há tantos anos guardado no Museu, de um fato infelizmente triste da história prudentina, foi de suma importância para preservação da memória da cidade e do seu acervo. É também uma forma de resgate histórico. Pois, além de todos esses benefícios, a população pode ter acesso a esse material como forma de pesquisa", comenta a diretora do Museu e Arquivo Histórico Municipal, Valentina Romeiro Flores.

Ela também destaca a entrega da cópia do arquivo digitalizada ao jornalista Altino Correia. "Um ponto a se destacar também neste lindo trabalho é ter a oportunidade de entregá-lo ao Sr. Altino Correia que tanto lutou para que isso ocorresse e que hoje tem em mãos uma cópia da transmissão ao vivo feita por ele diretamente do tribunal", enfatiza.

Jornalista e mestre em Educação, Maycon Morano classifica a preservação da história como um ato de cidadania. "A história é cíclica; muito do passado se repete. E, nestes tempos de quebra do paradigma da informação no qual nossa sociedade foi estabelecida, manter a história preservada é mais do que necessário. É obrigação do poder público, da sociedade civil organizada, empresários, de toda a comunidade", frisa.

"Aquele que tem determinado conhecimento, não possui poder, mas, sim, dever de compartilhar. Isto é cidadania. Povo que não conhece sua história, também não sabe qual caminho deve tomar", comenta o profissional de comunicação, que também possui trabalho de pesquisa sobre bolhas sociais e fake news.

Morano ainda cita a incansável atuação de Correia, que fará 90 anos nos próximos meses e segue ativo na profissão. "Para além disso, resgatar um importante ato de um dos fatos mais emblemáticos de nossa história, a transmissão do julgamento do assassinato de um prefeito que causou enorme comoção, e com o repórter ainda em vida, é uma justa, merecida e bela homenagem ao jornalista que mais faz em nossos tempos para preservar a história local por meio de seu blog", pontua.

Qualidade do material

Profissional formado pelo rádio, com anos de experiência em gravação e recuperação de arquivos, Wellington Rodrigues destaca a conservação do material apesar de tantas décadas desde a transmissão do julgamento.

"Isso foi muito importante para que fosse possível a recuperação do áudio com qualidade. As fitas de rolo estavam intactas, o que facilitou a leitura do gravador de rolo Akai, que preservo com carinho em meu estúdio. Foram quase sete horas de reprodução exigindo atenção total para detectar qualquer ruído que pudesse atrapalhar a reprodução. Fico feliz em poder ter contribuído para a manutenção desse acervo diante do peso que tem na história da cidade", comenta.

O fato trágico

No dia 21 de dezembro de 1965, o então prefeito Florivaldo Leal entrou para a história ao ser morto traiçoeiramente ao sair da Prefeitura. Um servidor braçal se revoltou por não ter sido atendido em audiência e decidiu, com o emprego de um cabo de picareta, "dar fim à vida do prefeito". 

"Bem na porta do antigo prédio da Prefeitura, ao descer pelas escadarias e sair em direção ao automóvel que deveria conduzir para a inauguração do Cine Ouro Branco. O primeiro golpe traiçoeiro foi desfechado pelas costas, acertando bem na nuca do prefeito. Depois, no chão mais dois golpes mortíferos. E daí, Florivaldo Leal foi prontamente encaminhado ao Hospital São Luiz. Mas, embora assistido por uma Junta Médica Especializada, não resistiu e acabou morrendo horas depois", narra Altino Correia.   

Embora eleito para um período de quatro anos, ele governou por menos de dois - de janeiro de 1964 até 21 de dezembro de 1965. Em maio de 1969, o acusado do crime foi julgado no Fórum da Comarca, prédio que fica bem ao lado da Catedral de São Sebastião.

O julgamento foi presidido pelo Dr. José Fernandes Rama, que sentenciou o acusado a cumprir 12 anos de prisão. "O assunto polarizava as atenções de todos e o espaço destinado ao público para acompanhar o julgamento era restrito. Nessa época, chefiando o jornalismo da ZYR-84 e aproveitando a amizade com o magistrado eu o alertei sobre o impacto desse julgamento e sugeri a transmissão ao vivo, que ele concordou prontamente", relembra Correia.

"O julgamento transmitido foi acompanhado por milhares de ouvintes, tornando-se a maior audiência até hoje na região de Presidente Prudente", finaliza.
      

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